Agronegócio ARTIGO 3 DA SÉRIE

Split Payment na Prática: Simulação de Fluxo de Caixa para 2027 no Agronegócio

Cenários lado a lado mostram como o regime atual e o split payment deslocam o momento em que o imposto sai do caixa.

No conteúdo anterior, chegamos a uma conclusão que contraria o senso comum: o split payment não “encurta o caixa” de forma automática. O efeito depende do prazo de recebimento de cada venda.

Se você recebe rápido, perde a folga que hoje existe entre faturar e recolher o imposto. Se recebe “na safra”, pode até ganhar prazo, porque hoje você recolhe o tributo cerca de 30 dias após faturar, mesmo sem ter recebido do produtor.

Aquele artigo explicou a lógica. Este vai mostrar os números. Vamos montar cenários lado a lado, comparando o regime atual com o modelo do split payment, para você enxergar o efeito no caixa, primeiro em uma venda isolada, depois ao longo de um ano inteiro de operação.

Uma observação antes de começar: os valores abaixo são ilustrativos, escolhidos para deixar a mecânica clara. A alíquota usada, de 10,6%, reflete a estimativa para insumos agropecuários, com a redução de 60% sobre a alíquota-padrão da reforma. O objetivo aqui não é precisão contábil, e sim mostrar o comportamento do caixa.

As premissas da simulação

Vamos usar a mesma revenda de defensivos do artigo anterior. As regras de cada regime:

Comparação dos regimes

A diferença está no momento da saída

A base da simulação permanece a mesma; muda apenas quando o imposto deixa o caixa.

Regime atual

Cerca de 30 dias após faturar

O imposto sobre a venda é recolhido independentemente de o cliente já ter pago.

Split payment

Quando o cliente paga

A partir de 2027, com a CBS plena, o imposto é retido na liquidação financeira da venda.

10,6%Alíquota ilustrativa aplicada sobre o valor da venda. Toda a diferença entre os regimes está no momento em que o imposto sai do caixa.

Cenário 1: uma venda de R$ 1 milhão

Comece pelo caso mais simples. Uma venda de R$ 1.000.000 em defensivos, gerando R$ 106.000 de imposto. O que muda é quando o produtor paga.

Simulação interativa

Uma venda, três prazos de recebimento

Ajuste o valor da venda para recalcular o imposto; depois alterne entre os três prazos do texto.

R$
Cálculo ilustrativo com alíquota fixa de 10,6%.
Imposto sobre a vendaR$ 106.000
Split payment
dia 0
Regime atual
dia 30
Venda à vista: você perde 30 dias de folga. O imposto de R$ 106.000 sai na hora no split payment.

O ponto de virada:

Recebimento mais curto que 30 dias: você perde folga. Mais longo: você ganha.

Cenário 2: um ano inteiro com sazonalidade

A venda isolada mostra a lógica, mas o caixa de verdade é feito de doze meses somados, e no agro esses meses são muito desiguais. A revenda concentra vendas na janela de plantio, de agosto a outubro, e recebe boa parte na safra seguinte, cerca de cinco meses depois, com PMR de 150 dias.

A simulação reúne mês a mês o faturamento, o custo da mercadoria e o pagamento ao fornecedor, o valor efetivamente recebido dos produtores, a base de imposto e o imposto que sai do caixa em cada regime. Todos os valores estão em R$ mil, com alíquota de 10,6%.

PME 90 dias · PMP 120 dias · PMR 150 dias · Custo da mercadoria em 70% da venda

Como a compra antecede a venda e o prazo do fornecedor é de 120 dias, o pagamento ao fornecedor referente a cada venda acaba saindo cerca de um mês depois do faturamento.

Imposto pago mês a mês

O total é igual; o pico muda de lugar

Passe o cursor nas barras para ver os valores e filtre as séries para comparar os regimes.

Regime atualSplit payment
Jan
Fev
Mar
Abr
Mai
Jun
Jul
Ago
Set
Out
Nov
Dez
Total anual — regime atual
R$ 668 mil
Total anual — split payment
R$ 668 mil
Visão completa da simulação

Os doze meses em uma única tabela

Todos os valores monetários estão em R$ mil. No celular, deslize horizontalmente para acompanhar os meses.

IndicadorJanFevMarAbrMaiJunJulAgoSetOutNovDezAno
Faturamento2001501001001503005009001.8001.5004002006.300
Custo da mercadoria14010570701052103506301.2601.0502801404.410
Pagamento ao fornecedor14014010570701052103506301.2601.0502804.410
Recebido no mês9001.8001.5004002002001501001001503005006.300
Alíquota10,6%10,6%10,6%10,6%10,6%10,6%10,6%10,6%10,6%10,6%10,6%10,6%
Imposto gerado21161111163253951911594221668
Imposto pago — atual21211611111632539519115942668
Imposto pago — split95191159422121161111163253668

A linha “imposto pago — atual” concentra o peso em outubro/novembro. A linha “imposto pago — split” desloca esse peso para janeiro/fevereiro/março.

Os totais batem: R$ 668 mil de imposto no ano, nos dois regimes. A reforma não muda quanto você paga nesse recorte. Muda o quando, e é aí que está a história.

Onde o imposto pesa em cada regime

No regime atual, o imposto explode em outubro e novembro, R$ 191 mil mais R$ 159 mil. Não por acaso: é o recolhimento das vendas gigantes de setembro e outubro. O problema é que a revenda vendeu para a safra e ainda não recebeu quase nada dos produtores.

No split payment, esse mesmo imposto se desloca para janeiro, fevereiro e março, R$ 95 mil, R$ 191 mil e R$ 159 mil. É quando os produtores efetivamente pagam pela safra. O imposto passa a acompanhar a entrada de dinheiro, em vez de anteceder-se a ela.

Deslocamento do pico

Do faturamento para o recebimento

O imposto deixa de acompanhar a montanha de notas e passa a acompanhar a liquidação financeira.

Regime atualOutubro e novembro

R$ 191 mil + R$ 159 mil, logo após o pico de vendas e antes do pico de recebimento.

Split paymentJaneiro, fevereiro e março

R$ 95 mil + R$ 191 mil + R$ 159 mil, quando os produtores pagam pela safra.

Traduzindo para a rotina da empresa: no modelo atual, a revenda precisa de um reforço de capital de giro em outubro/novembro só para recolher imposto de vendas que ainda não virou dinheiro. No split payment, esse desembolso migra para o começo do ano seguinte, quando a colheita já entrou no caixa. Para uma operação sazonal, isso pode representar meses de alívio no período mais apertado do ciclo.

E há um agravante: o pagamento ao fornecedor também se concentra em outubro e novembro, R$ 1.260 mil mais R$ 1.050 mil, referente às compras que abasteceram o pico de vendas.

A tempestade perfeita de caixa

Fornecedor e imposto no mesmo mês

Alterne entre outubro e novembro para comparar os desembolsos da tabela.

Pagamento ao fornecedorR$ 1.260 mil
Imposto — regime atualR$ 191 mil
Imposto — split paymentR$ 16 mil

Em outubro, o pagamento ao fornecedor e o maior imposto do regime atual caem no mesmo mês.

Ou seja, no regime atual, o pior mês de fornecedor e o pior mês de imposto caem juntos, e ambos antes de a revenda receber dos produtores. É a tempestade perfeita de caixa: paga-se o fornecedor e o imposto de um volume de vendas que só vai se transformar em dinheiro meses depois.

O split payment não resolve o desembolso com o fornecedor, mas ao menos tira o imposto de cima dessa mesma pilha, adiando-o para quando o recebimento acontece.

Como ler esses cenários na sua empresa

Antes de concluir qualquer coisa para o seu caso, três alertas sobre a leitura desses números:

1

O PMR define o efeito

Se a revenda vende mais à vista ou a prazo curto, o efeito se inverte e o caixa aperta. O cenário é favorável porque assume recebimento longo.

2

Créditos não estão na conta

No Lucro Real, os créditos das compras reduzem o valor líquido, mas não alteram a lógica do momento do caixa.

3

Barter e atraso interferem

Pagamento em grão ou inadimplência tornam menos previsível o momento da liquidação que dispara a retenção.

Nota de verificação do autor: a alíquota de 10,6% e o cronograma, com CBS plena em 2027, baseiam-se na Lei Complementar 214/2025 e em estimativas do Ministério da Fazenda. A mecânica exata do split payment para vendas a prazo e barter ainda depende de regulamentação do Comitê Gestor do IBS. Confirme os números mais recentes nas fontes oficiais antes de decisões financeiras.

O que vem por aí

Estes cenários foram construídos com números redondos e uma sazonalidade genérica, de propósito, para que a mecânica ficasse visível. A sua empresa tem prazos, mix e curva de faturamento próprios, e é a combinação deles que define se o split payment vai jogar a favor ou contra o seu caixa.

O exercício que vale a pena é refazer esta mesma tabela com os seus números: o seu faturamento mês a mês, o seu PMR real e a alíquota do seu produto.

No próximo conteúdo, vamos mudar o foco do imposto para o estoque em si, e tratar de quatro indicadores que, juntos, contam a história do capital parado na sua operação: estoque médio, giro, prazo médio e cobertura. Vamos ver como eles se conectam e o que cada um revela, usando o contexto de lojas agropecuárias.

Perguntas frequentes

Não. Os valores são ilustrativos e foram escolhidos para deixar a mecânica clara. O objetivo é mostrar o comportamento do caixa, não oferecer precisão contábil.
O prazo de 30 dias. Recebimentos mais curtos fazem a empresa perder a folga; recebimentos mais longos fazem a empresa ganhar prazo no exemplo.
Neste recorte, não. A simulação totaliza R$ 668 mil no regime atual e R$ 668 mil no split payment. O que muda é quando o dinheiro sai.
No regime atual, o recolhimento acompanha o faturamento e pesa em outubro/novembro. No split payment, acompanha os pagamentos dos produtores e se desloca para janeiro/fevereiro/março.
O prazo real de recebimento, os créditos tributários, o barter e a inadimplência. Cada empresa precisa refazer a simulação com o próprio faturamento, PMR e alíquota.

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